Søren Kierkegaard

Søren Kierkegaard: a existência singular, a angústia e os estágios da vida

PSICOLOGIA FENOMENOLÓGICA EXISTENCIAL E HUMANISTA

Isolda Bravin

1/24/20263 min read

Søren Kierkegaard (1813–1855) é considerado o precursor do existencialismo, ainda que escrevesse antes do surgimento formal dessa corrente no século XX. Sua filosofia nasce como uma reação crítica à filosofia sistemática de seu tempo, especialmente ao idealismo hegeliano, que buscava explicar a realidade por meio de sistemas racionais totalizantes. Para Kierkegaard, esse tipo de filosofia esquecia o essencial: a existência concreta do indivíduo singular, com suas escolhas, angústias, contradições e responsabilidades.

Ao contrário de uma filosofia que pretende explicar o mundo “do alto”, Kierkegaard insiste que a verdade mais importante é a verdade subjetiva, isto é, aquela que diz respeito à maneira como o indivíduo se relaciona com sua própria existência. Não se trata de relativismo, mas da afirmação de que existir não é o mesmo que conhecer conceitos abstratos. Uma pessoa pode compreender racionalmente uma ideia, mas isso não significa que a viva existencialmente. Assim, para Kierkegaard, a filosofia deve partir da pergunta: como eu existo? e não apenas o que é o ser?

Nesse sentido, Kierkegaard introduz uma compreensão dramática da existência humana. Existir implica escolher, e toda escolha envolve risco, incerteza e angústia. A angústia, longe de ser apenas um sintoma patológico, é entendida como uma condição fundamental da liberdade humana: ela surge diante da possibilidade de escolher e de se responsabilizar por aquilo que se escolhe. O ser humano, portanto, não é definido por uma essência prévia, mas pelo modo como se posiciona diante das possibilidades de sua própria vida.

Para descrever os diferentes modos de viver essa existência, Kierkegaard apresenta os chamados estágios da existência: o estético, o ético e o religioso. Esses estágios não são fases cronológicas nem uma evolução automática; são formas qualitativamente distintas de se relacionar com a vida.

O estágio estético é marcado pela busca do prazer, da novidade e da satisfação imediata. O indivíduo estético vive no presente, evitando compromissos profundos e fugindo da angústia por meio do entretenimento, da sedução ou do consumo de experiências. No entanto, esse modo de vida tende a levar ao vazio e ao desespero, pois carece de continuidade e sentido duradouro.

O estágio ético surge quando o indivíduo passa a assumir responsabilidade por suas escolhas. Aqui, a pessoa reconhece a si mesma como autora de sua própria vida, comprometendo-se com valores, deveres e projetos. A existência ética envolve continuidade, responsabilidade e reflexão, mas ainda permanece no âmbito do universal — das normas morais compartilhadas.

O estágio religioso, por sua vez, representa um salto qualitativo que ultrapassa tanto o prazer imediato quanto a moral universal. Ele é marcado pela relação singular e apaixonada do indivíduo com Deus, uma relação que não pode ser plenamente justificada pela razão. Kierkegaard utiliza a figura bíblica de Abraão, disposto a sacrificar Isaac, para ilustrar esse estágio: trata-se de uma experiência de fé que envolve paradoxo, angústia e entrega absoluta. Por isso, o estágio religioso exige o chamado salto da fé, um movimento existencial que não pode ser garantido por argumentos racionais.

Assim, Kierkegaard coloca no centro da filosofia temas como angústia, desespero, escolha, responsabilidade e fé, inaugurando uma compreensão da existência humana como tarefa e risco. Sua obra abre caminho para o existencialismo do século XX ao afirmar que o sentido da vida não é dado, mas vivido, e que cada indivíduo é chamado a assumir sua própria existência de forma singular.

Bibliografia

KIERKEGAARD, Søren. O conceito de angústia. Tradução de Álvaro Valls. Petrópolis: Vozes, 2010.

KIERKEGAARD, Søren. Temor e tremor. Tradução de Maria José Marinho. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

KIERKEGAARD, Søren. O desespero humano (A doença mortal). Tradução de Álvaro Valls. Petrópolis: Vozes, 2013.

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia: do romantismo ao existencialismo. São Paulo: Paulus, 2007.

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. São Paulo: Martins Fontes, verbete “Kierkegaard”.

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