O conceito de Self na Gestalt-terapia
O texto fala sobre como o self é entendido no contexto da Gestalt-Terapia.
GESTALT-TERAPIA
Isolda
3/24/20264 min read


Na Gestalt-Terapia, o conceito de Self se distancia bastante da ideia tradicional de um “eu” fixo, estável ou localizado dentro da pessoa. Em vez disso, o self é compreendido como um processo dinâmico, que acontece continuamente na relação entre o organismo e o ambiente. Ou seja, o self não é algo que a pessoa “tem”, mas algo que acontece a todo momento, na forma como ela percebe, sente, pensa e age em suas experiências.
Essa perspectiva implica entender que o self está sempre em movimento. A cada nova situação, a pessoa se reorganiza de maneira singular, respondendo às demandas do momento. Assim, o self é essencialmente relacional: ele emerge no contato com o mundo, nas escolhas, nas reações e nas formas de se envolver ou se retirar das experiências. Não existe um self único e imutável, mas múltiplas formas de ser que se atualizam conforme o contexto.
Na Gestalt-Terapia, o self também pode ser compreendido como uma função de contato. É por meio dele que a pessoa consegue diferenciar o que é “eu” e o que é “outro”, estabelecer relações, satisfazer necessidades e, depois, encerrar essas experiências. Esse fluxo de contato — aproximar-se, envolver-se e afastar-se — é fundamental para a saúde psicológica.
Didaticamente, o funcionamento do self pode ser descrito em três dimensões. A função id está relacionada às sensações, impulsos e necessidades mais imediatas, como fome, cansaço ou desejo. A função ego diz respeito à capacidade de escolha, decisão e ação — é quando a pessoa avalia possibilidades e se posiciona diante delas. Já a função personalidade envolve a forma como a pessoa se reconhece, incluindo sua história, seus papéis sociais e a imagem que construiu de si mesma.
Um self saudável é caracterizado pela flexibilidade. Ele permite que a pessoa se adapte às diferentes situações, percebendo o que está acontecendo no momento presente e respondendo de forma criativa. Por outro lado, quando o self se torna rígido, repetitivo ou automático, surgem dificuldades. A pessoa passa a reagir sempre da mesma maneira, mesmo quando a situação exige algo diferente. Isso pode ser observado, por exemplo, em alguém que evita conflitos constantemente, mesmo quando precisa se posicionar, gerando frustração e sofrimento.
Na prática clínica, o objetivo da Gestalt-Terapia não é modificar o self como se fosse uma estrutura defeituosa, mas favorecer o aumento da awareness e ampliar as possibilidades de contato. O processo terapêutico busca ajudar o paciente a perceber como está funcionando, reconhecer seus padrões e experimentar novas formas de se relacionar consigo mesmo e com o mundo. Assim, o self pode recuperar sua fluidez e sua capacidade criativa, permitindo uma vida mais autêntica e integrada.
O que é o self neurótico na Gestalt-Terapia?
Na Gestalt-Terapia, o chamado “self neurótico” não se refere a uma estrutura defeituosa ou a um tipo fixo de personalidade, mas a uma forma de funcionamento em que o self perde sua fluidez e sua capacidade de responder de maneira criativa às situações da vida. Trata-se de um processo rigidificado, no qual a pessoa passa a repetir padrões de contato que já não são adequados ao presente.
Como vimos, o self é um processo que acontece no contato entre organismo e ambiente. Em condições saudáveis, esse processo é flexível, sensível ao contexto e capaz de se reorganizar conforme as necessidades emergentes. No entanto, quando há bloqueios nesse fluxo, o self passa a operar de maneira automática, reduzindo as possibilidades de experiência.
O self neurótico, portanto, é caracterizado por uma espécie de “empobrecimento” do contato. A pessoa deixa de perceber o que realmente sente ou precisa no momento presente e passa a agir com base em respostas já conhecidas, muitas vezes aprendidas em contextos passados. Essas respostas podem até ter sido úteis em algum momento da vida, mas tornam-se limitantes quando são repetidas indiscriminadamente.
Um dos aspectos centrais desse funcionamento é a perda de awareness. Sem awareness suficiente, a pessoa não consegue discriminar o que é novo do que é antigo, o que é próprio do que é do outro, o que deseja do que acredita que deveria desejar. Com isso, sua experiência tende a se tornar previsível, repetitiva e, frequentemente, fonte de sofrimento.
Esse modo neurótico de funcionamento está intimamente relacionado às chamadas interrupções de contato, como introjeção, projeção, retroflexão, deflexão e confluência. Esses mecanismos não são, em si, patológicos; eles fazem parte do funcionamento humano. O problema surge quando se tornam fixos e predominantes, impedindo o fluxo natural do contato.
Por exemplo, uma pessoa que aprendeu ao longo da vida que expressar raiva é perigoso pode desenvolver uma tendência a retroflexão, voltando essa energia contra si mesma. Mesmo em situações em que a expressão seria saudável e necessária, ela se contém, se cala ou se pune internamente. Nesse caso, o self não está respondendo ao presente, mas reproduzindo um padrão antigo.
É importante destacar que, na Gestalt-Terapia, a neurose não é vista como algo a ser eliminado, mas compreendida como uma tentativa de ajustamento. O self neurótico representa uma forma que a pessoa encontrou para lidar com o mundo em determinado momento de sua história. O trabalho terapêutico, portanto, não consiste em “corrigir” esse funcionamento, mas em ampliá-lo.
Na prática clínica, o objetivo é favorecer a retomada da awareness e a flexibilização desses padrões, permitindo que o paciente experimente novas formas de contato. Ao se tornar mais consciente de como funciona, a pessoa pode recuperar sua capacidade de escolha e responder de maneira mais autêntica às situações da vida.
Assim, o self neurótico não é um “erro” do indivíduo, mas um processo que perdeu sua plasticidade. E é justamente essa plasticidade — essa capacidade de se transformar diante do novo — que a Gestalt-Terapia busca restaurar.
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