Edmund Husserl
Edmund Husserl (1859–1938): Fenomenologia e a Retomada da Experiência Vivida
PSICOLOGIA FENOMENOLÓGICA EXISTENCIAL E HUMANISTA
Isolda Bravin
1/24/20263 min read


Edmund Husserl é o fundador da Fenomenologia e uma das figuras centrais da filosofia do século XX. Sua proposta nasce de uma inquietação profunda com os rumos das ciências modernas, que, segundo ele, passaram a explicar o mundo de forma cada vez mais técnica, objetiva e matematizada, afastando-se da experiência concreta do ser humano. Para Husserl, esse distanciamento produziu uma crise do sentido: as ciências avançam em precisão, mas perdem contato com aquilo que realmente dá significado à vida humana.
Husserl teve formação sólida em matemática e astronomia, além de filosofia e psicologia. Essa formação científica o levou a buscar uma filosofia rigorosa, capaz de fundamentar o conhecimento com o mesmo cuidado que as ciências exatas, mas sem reduzir a experiência humana a números, leis causais ou mecanismos naturais. Seu objetivo não era negar a ciência, mas questionar seus fundamentos.
Uma influência decisiva em seu pensamento foi Franz Brentano, de quem Husserl herdou o conceito de intencionalidade da consciência. Segundo essa ideia, toda consciência é sempre consciência de algo: ao perceber, lembrar, imaginar, desejar ou julgar, a consciência está sempre direcionada a um objeto. Não existe uma consciência vazia, fechada em si mesma; ela está, desde sempre, voltada para o mundo.
Esse princípio leva Husserl a uma afirmação fundamental: o sentido das coisas não está simplesmente nos objetos em si, nem apenas no sujeito isolado, mas na relação entre consciência e aquilo que aparece à consciência. Assim, conhecer não é copiar uma realidade externa pronta, mas vivenciar e dar sentido ao que se manifesta na experiência.
A partir disso, Husserl define o fenômeno como tudo aquilo que aparece à consciência tal como é vivido. Fenômeno não é apenas algo externo, mas o fluxo de vivências — perceber uma paisagem, ouvir um som, sentir medo, recordar um acontecimento. A fenomenologia, portanto, não busca explicar esses fenômenos por causas biológicas, psicológicas ou sociais, mas descrevê-los fielmente, do modo como se apresentam à experiência.
Esse compromisso com a descrição conduz ao método fenomenológico. Um de seus conceitos centrais é a epoché, que consiste na suspensão de juízos prévios sobre a realidade. Husserl propõe “colocar entre parênteses” explicações científicas, crenças culturais, opiniões pessoais e pressupostos metafísicos, não para negá-los, mas para não deixar que interfiram na descrição da experiência. O foco passa a ser: como algo aparece à consciência, e não se aquilo é real, verdadeiro ou ilusório.
Associada à epoché está a redução fenomenológica, que significa um retorno às experiências originárias da consciência. Trata-se de voltar ao modo como as coisas se mostram antes de serem explicadas, interpretadas ou teorizadas. A redução não empobrece a experiência; ao contrário, permite que ela apareça em sua riqueza e complexidade.
Nesse contexto, Husserl introduz um conceito fundamental para compreender sua crítica à modernidade: o mundo da vida (Lebenswelt). O mundo da vida é o mundo tal como é vivido cotidianamente, antes de qualquer explicação científica. É o mundo das relações, das percepções imediatas, da linguagem comum, dos valores, do corpo e da convivência. Antes de qualquer teoria sobre o mundo, nós já estamos nele, vivendo, sentindo, percebendo e atribuindo sentido.
Husserl argumenta que as ciências modernas esqueceram esse mundo originário ao focar exclusivamente em modelos abstratos e técnicos. No entanto, toda ciência só é possível porque existe, antes, um mundo da vida que dá base a qualquer investigação. A fenomenologia, portanto, propõe uma retomada do mundo da vida como fundamento de todo conhecimento.
Assim, o grande objetivo de Husserl é construir uma filosofia rigorosa, capaz de esclarecer os fundamentos do conhecimento, recuperando a experiência vivida como ponto de partida. A fenomenologia não oferece respostas prontas, mas ensina a ver, descrever e compreender a experiência humana em sua relação direta com o mundo, abrindo caminho para muitos desdobramentos posteriores na filosofia, na psicologia e nas ciências humanas.
Referências
HUSSERL, Edmund. Investigações lógicas. Tradução de Zeljko Loparic et al. São Paulo: Nova Cultural, 1996.
HUSSERL, Edmund. A ideia da fenomenologia. Tradução de Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 2000.
HUSSERL, Edmund. Meditações cartesianas. Tradução de Frank de Oliveira. São Paulo: Madras, 2001.
DARTIGUES, André. O que é a fenomenologia? Tradução de Maria José J. G. de Almeida. São Paulo: Centauro, 2003.
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